O seguro cresceu 0,5% no semestre, e esse número conta a história errada

Dados da Susep divulgados em 10 de agosto mostram alta de apenas 0,5% no semestre. Só que o freio veio de um produto de investimento, não do seguro: a proteção de danos e pessoas subiu 6,51% no mesmo período.

Categoria: Mercado de Seguros · Por Equipe MR2 · Publicado em 2026-08-17

Ilustração de uma balança de dois pratos fora de equilíbrio: o prato da esquerda, carregado de blocos empilhados, afundou, enquanto o da direita, com apenas duas peças, subiu

O mercado supervisionado pela Susep movimentou R$ 207,12 bilhões entre janeiro e junho de 2026, alta de apenas 0,5% sobre o mesmo período do ano passado. Os dados foram divulgados em 10 de agosto e, à primeira vista, desenham um setor parado. Só que, olhando ramo por ramo, o retrato é quase o oposto: o que segurou o número foi um produto de investimento que apanhou de uma mudança de imposto, enquanto o seguro de proteção propriamente dito cresceu 6,51% e o de auto chegou a R$ 30,7 bilhões.

O que a Susep divulgou

O levantamento cobre o primeiro semestre de 2026 e reúne tudo que a Susep supervisiona, ou seja, seguros, previdência aberta, capitalização e resseguro. Os números principais:

  • Receita total de R$ 207,12 bilhões, alta nominal de 0,5% sobre o primeiro semestre de 2025.
  • Descontada a inflação, essa alta vira queda de 3,67% em termos reais.
  • Só em junho, a arrecadação foi de R$ 34,23 bilhões, um avanço de 13,4% sobre junho de 2025 e de 2,8% sobre maio.
  • O setor devolveu R$ 126,2 bilhões à sociedade em indenizações, resgates, benefícios e sorteios.

Vale guardar o contraste: em abril de 2026, a CNseg projetava crescimento de 5,7% e arrecadação de R$ 808 bilhões para o ano. Meio ano depois, o número consolidado veio bem abaixo desse ritmo.

Por que o número geral engana

A conta da Susep junta produtos que têm lógicas completamente diferentes. De um lado, seguro, que é proteção contra um prejuízo. De outro, previdência e capitalização, que são acumulação de dinheiro. Quando os dois entram na mesma linha, o comportamento de um esconde o do outro.

  • VGBL: R$ 69,8 bilhões em contribuições, 7,1% abaixo do ano anterior.
  • Capitalização: R$ 15,6 bilhões, queda nominal de 7,8%.
  • Danos e pessoas, sem VGBL: R$ 113,86 bilhões, alta nominal de 6,51%.

Só o VGBL responde por cerca de um terço de toda a receita do setor no semestre. Quando ele cai 7,1%, puxa o total para baixo mesmo com o seguro crescendo.

E existe uma explicação conhecida para essa queda. Desde janeiro de 2026, pelo Decreto nº 12.499/2025, incide IOF de 5% sobre os aportes em VGBL que passarem de R$ 600 mil por CPF ao longo do ano, somando o que a pessoa aplicou em todas as seguradoras. A Fenaprevi estima um déficit acumulado de R$ 130 bilhões em contribuições desde que a cobrança começou, com o dinheiro migrando para consumo e para investimentos sem incidência do imposto.

Auto e vida puxando para cima

Nos ramos que são seguro de verdade, o semestre foi de alta:

  • Seguro auto: R$ 30,73 bilhões em prêmios, crescimento nominal de 6,29% e real de 1,86%. Segue como o principal ramo entre os seguros de danos.
  • Seguro de vida: crescimento nominal de 10,29% e real de 5,70%, com cerca de R$ 20 bilhões arrecadados.

O detalhe que costuma passar batido é o crescimento real, aquele que já desconta a inflação. Um ramo pode subir 6% e, na prática, estar apenas empatando com a alta de preços. Auto cresceu 1,86% acima da inflação, o que é modesto, mas é crescimento de verdade. Vida cresceu 5,70% acima da inflação, um ritmo bem mais forte.

Na análise publicada pela Revista Apólice em 12 de agosto, o economista Marcio Serôa de Araujo Coriolano, ex-presidente da CNseg, aponta como destaques positivos do período os ramos de automóveis, compreensivo, financeiro, habitacional, patrimonial, vida e prestamista. Do outro lado, aparecem em retração rural, riscos especiais, transportes, responsabilidade civil e acidentes pessoais.

Quando sai uma manchete dizendo que o seguro cresceu quase nada, o cliente pergunta se o setor está mal. A resposta honesta é que depende do que você está olhando. O seguro de carro e o de vida cresceram acima da inflação. Quem caiu foi previdência e capitalização, que são outro tipo de produto.

Equipe MR2

O que o setor devolveu em pagamentos

Os R$ 126,2 bilhões pagos em indenizações, resgates, benefícios e sorteios no semestre são o outro lado da moeda, e talvez o número mais útil para quem ainda desconfia de seguro. Ele caiu 3,9% em termos nominais em relação ao ano anterior, acompanhando o movimento da arrecadação.

Para efeito de comparação, o valor devolvido equivale a mais de 60% de tudo que entrou no período. É dinheiro que voltou para segurados, beneficiários e participantes, e é a evidência mais direta contra a ideia de que seguradora só recebe e nunca paga.

O que isso muda para quem contrata

Pouca coisa no curto prazo, e é bom dizer isso com clareza em vez de criar urgência artificial. Dados de mercado não mexem no preço da sua renovação sozinhos. O que eles fazem é mostrar a direção:

  1. Auto crescendo acima da inflação costuma andar junto com carteira em expansão e mais concorrência entre seguradoras, o que favorece quem cota.
  2. Vida crescendo 5,70% em termos reais confirma o que já apareceu em outros levantamentos de 2026: mais gente contratando proteção de pessoas, não menos.
  3. A queda de VGBL e capitalização é assunto de planejamento financeiro e tributário, não de proteção. Se você tem VGBL, o ponto a conversar é o limite de R$ 600 mil por ano, não a sua apólice de carro.

O que dá para fazer com essa informação

  1. Cote antes de renovar, principalmente auto. Mercado em expansão significa seguradoras disputando carteira, e a diferença entre a primeira e a última proposta costuma ser relevante.
  2. Olhe o crescimento real, não o nominal. Quando ler qualquer número de mercado, pergunte se ele já desconta a inflação. Muda completamente a leitura.
  3. Não confunda seguro com previdência. São produtos diferentes, com finalidades diferentes, vendidos pela mesma empresa. Notícia ruim de um não é notícia ruim do outro.
  4. Se você tem VGBL, confira quanto aportou no ano. A regra de IOF vale por CPF e soma o que foi aplicado em seguradoras diferentes, então quem tem plano em mais de uma casa precisa somar tudo.
  5. Revise coberturas antes de mexer no preço. Baratear a apólice cortando cobertura que você usa não é economia, é troca de risco.
  6. Guarde a data. O boletim da Susep sai mensalmente. Se o assunto interessa, vale acompanhar em vez de reagir a uma manchete isolada.

Perguntas frequentes

O setor de seguros está encolhendo no Brasil?

Não é isso que os dados mostram. A receita total do primeiro semestre de 2026 ficou praticamente estável, com alta nominal de 0,5%, mas a parte de seguros de danos e pessoas cresceu 6,51%. Quem puxou o total para baixo foi o VGBL, que é um produto de previdência, e a capitalização.

Por que o VGBL caiu em 2026?

A queda de 7,1% aparece associada à mudança na cobrança do IOF. Desde janeiro de 2026, pelo Decreto nº 12.499/2025, os aportes que passam de R$ 600 mil por CPF no ano pagam 5% de imposto sobre o excedente, somando o que foi aplicado em todas as seguradoras. A Fenaprevi calcula um déficit acumulado de R$ 130 bilhões em contribuições desde o início da cobrança.

O seguro de carro ficou mais caro em 2026?

O dado da Susep é de arrecadação, não de preço médio, então ele não responde isso sozinho. O que ele mostra é que o ramo auto movimentou R$ 30,73 bilhões no semestre, com crescimento de 1,86% acima da inflação. Preço de apólice depende de perfil, região, modelo e histórico, e por isso a comparação que vale é a da sua cotação.

Quanto o setor pagou aos segurados neste semestre?

Foram R$ 126,2 bilhões em indenizações, resgates, benefícios e sorteios entre janeiro e junho de 2026, segundo a Susep. O valor representa mais de 60% de tudo que o setor arrecadou no período.

Em resumo

O primeiro semestre de 2026 é um bom exemplo de por que número de mercado precisa ser lido com contexto. Um crescimento de 0,5% parece sinal de setor travado, mas ele mistura proteção com investimento e acaba contando uma história que os ramos individuais não confirmam.

Para quem contrata seguro, a leitura útil é mais simples: auto e vida cresceram acima da inflação, o setor devolveu R$ 126,2 bilhões em pagamentos e a concorrência entre seguradoras segue de pé. Ou seja, continua valendo a mesma rotina de sempre, que é cotar antes de renovar e conferir cobertura antes de olhar só o preço.

Fontes

  1. Dados do mercado supervisionado do primeiro semestre de 2026 · Susep · 10 de agosto de 2026
  2. Seguradoras arrecadam R$ 207 bi no 1º semestre, alta nominal de 0,5%, mostra Susep · InfoMoney · 10 de agosto de 2026
  3. Setor supervisionado pela Susep registra R$ 207,12 bilhões em receitas no primeiro semestre · Sincor-SP · 10 de agosto de 2026
  4. Economista analisa cenário do mercado de seguros até junho, análise de Marcio Serôa de Araujo Coriolano · Revista Apólice · 12 de agosto de 2026
  5. Setor de seguros projeta crescimento de 5,7% em 2026 e arrecadação de R$ 808 bilhões · CNseg · 15 de abril de 2026
  6. Efeito do IOF nas captações de VGBL e o Decreto nº 12.499/2025 · Fenacor e InfoMoney · 2026

Veja também a página de Seguro Seguros da MR2.